Foto: Bernardino Furtado/março de 2006

Ônibus de bóias-frias na rota Pitangueiras-Sertãozinho (SP)
Por Bernardino Furtado
Nunca tive talento para ator. Menos ainda para impostor. E foi isso que tentei ser quando me propus contar, como se fosse um deles, uma história sobre cortadores de cana migrantes. Para aprofundar o desgaste emocional, estava sozinho, com uma câmera amadora dentro da mochila. Tinha de fotografar, também a despeito da total falta de talento para isso. O que me salvou foi a persistência, ou teimosia, que adquiri ao longo de muitos anos de ofício de repórter.
Em Francisco Badaró, Araçuaí e Itinga, cidades aonde fui buscar a ponta do novelo da reportagem “Deserdados da cana”, sofri também com o sentimento de rejeição. Não era um deles. As roupas, compradas em bancas de feira, os chinelos e a imitação dos hábitos locais não eram suficientes para apagar minha origem diversa.
Num barraco de travessa da Rua Minas Gerais, reduto de cortadores de cana em Pitangueiras, no Estado de São Paulo, a rejeição cresceu. Os moradores, de uma mesma família de Araçuaí, não queriam, apesar dos bons modos do hóspede, abrigar um intruso que pedia para cortar cana.
Quando voltei a Pitangueiras para concluir a reportagem, já em vestes de jornalista, um dos meus antigos hospedeiros observou: “Sabia que você não era o que falava. Só não atinei que pudesse ser um repórter.”
O que me restou de verdadeiro foi a dor nos músculos, as câimbras e os arranhões de um único dia nos canaviais. Embora me doesse com mais intensidade pela falta de costume, era a mesma dor que os cortadores de cana migrantes sentiam.
Foto: Bernardino Furtado/março de 2006

Cortadores de cana-de-açúcar em Sertãozinho (SP)
Foto: Edileno Magalhães/março de 2006

O repórter Bernardino Furtado em canavial de Sertãozinho
Explore a barra da esquerda do blog para ver mais fotos (“Álbum Bernardino”) da reportagem Deserdados da Cana, que conquistou o Prêmio Herzog de Anistia e Direitos Humanos de 2006.