Alguém nos livre dessa jequice!

Por Bernardino Furtado

Esse blog não costuma falar de política. E ainda não vai falar desta vez. Se assanha para esculhambar a quintessência do bairrismo jeca expresso no editorial de primeira página de hoje do jornal “Estado de Minas” intitulado: “Minas a reboque não!”. Isso não é política, é politiquinha de província!

Sob o pretexto de repelir a suposta pressão de parte do PSDB para que o governador de Minas, Aécio Neves, aceite a vaga de vice na chapa presidencial do partido, o jornal tenta ressuscitar uma forma de fazer política felizmente sepultada com o fim da República Velha (década de 1930).

Na ânsia de ser porta-voz, o auto-intitulado “grande jornal dos mineiros” chega a diminuir a estatura de Aécio, um ator político nacional importante há um bom tempo, ao chamá-lo de ‘líder de Minas’, ‘político da alta linhagem de Minas’, e outras bobagens.

Qualquer candidato à Presidência da República é candidato dos brasileiros. Se não for, não vale a pena. Somos todos cada vez mais nacionais, latino-americanos, cidadãos do mundo, a despeito das desigualdades profundas entre as nações e entre regiões de um mesmo país. Mas o que precisamos é lutar para reduzi-las e não cultivar velhas e podres práticas das capitanias hereditárias, da escravocrata aristocracia rural.

O sistema federativo brasileiro só tem sentido no plano objetivo. Funciona para organizar a partilha de receitas tributárias e também de obrigações de investimentos públicos, para administrar mais de perto questões locais condicionadas pelas características do território, da cultura, da maior ou menor disponibilidade de riqueza, etc. Se temos um governo central, ele fala aos brasileiros e deve servir os brasileiros.

O que é mais ridículo no editorial do “Estado de Minas” é se arvorar de porta-voz também de nós, nascidos ou simplesmente moradores desta terra boa. O jornal diz “Minas vai dizer não”, “Os mineiros não aceitam isso não aceitam aquilo”. Vade retro, sou mineiro, uai, mas sobretudo sou brasileiro, sou do mundo, sou da Internet.

A dor é verdadeira

Foto: Bernardino Furtado/março de 2006

Ônibus de bóias-frias na rota Pitangueiras-Sertãozinho (SP)

Por Bernardino Furtado

Nunca tive talento para ator. Menos ainda para impostor. E foi isso que tentei ser quando me propus contar, como se fosse um deles, uma história sobre cortadores de cana migrantes. Para aprofundar o desgaste emocional, estava sozinho, com uma câmera amadora dentro da mochila. Tinha de fotografar, também a despeito da total falta de talento para isso. O que me salvou foi a persistência, ou teimosia, que adquiri ao longo de muitos anos de ofício de repórter.

Em Francisco Badaró, Araçuaí e Itinga, cidades aonde fui buscar a ponta do novelo da reportagem “Deserdados da cana”, sofri também com o sentimento de rejeição. Não era um deles. As roupas, compradas em bancas de feira, os chinelos e a imitação dos hábitos locais não eram suficientes para apagar minha origem diversa.

Num barraco de travessa da Rua Minas Gerais, reduto de cortadores de cana em Pitangueiras, no Estado de São Paulo, a rejeição cresceu. Os moradores, de uma mesma família de Araçuaí, não queriam, apesar dos bons modos do hóspede, abrigar um intruso que pedia para cortar cana.

Quando voltei a Pitangueiras para concluir a reportagem, já em vestes de jornalista, um dos meus antigos hospedeiros observou: “Sabia que você não era o que falava. Só não atinei que pudesse ser um repórter.”

O que me restou de verdadeiro foi a dor nos músculos, as câimbras e os arranhões de um único dia nos canaviais. Embora me doesse com mais intensidade pela falta de costume, era a mesma dor que os cortadores de cana migrantes sentiam.

Foto: Bernardino Furtado/março de 2006

Cortadores de cana-de-açúcar em Sertãozinho (SP)

Foto: Edileno Magalhães/março de 2006

O repórter Bernardino Furtado em canavial de Sertãozinho

Explore a barra da esquerda do blog para ver mais fotos (“Álbum Bernardino”) da reportagem Deserdados da Cana, que conquistou o Prêmio Herzog de Anistia e Direitos Humanos de 2006.

Ainda a demissão arbitrária

A propósito de análise publicada no ‘Blog do Dany” (ver link abaixo) pelo colega Dany Starling, enviei o seguinte comentário que diverge profundamente das posições defendidas por ele:

“Questões jurídicas e de hermenêutica à parte, achei sua análise sobre o caso Emmanuel de um conformismo atroz, além de ter um viés patronal quando diz, como que num lamento, que a Justiça do Trabalho tende a dar razão aos empregados. Dá razão porque as empresas brasileiras, e o Estado de Minas é um caso vistoso dessa prática, não cumprem a lei. Não pagam horas extras, desrespeitam de forma contumaz a obrigação de conceder descanso semanal remunerado regular, horário de almoço, etc.
No quesito conformismo, dizer que fazer críticas ao jornal num blog pessoal, fora do horário de trabalho pode ser classificado como improbidade, é remontar ao servilismo e à censura. Improbidade só caberia se fosse cometida durante a jornada de trabalho, no local de trabalho ou qualquer outro em que estivesse a serviço do jornal.

Ninguém tem contrato de exclusividade de trabalho com o Estado de Minas nem com jornal nenhum no Brasil. O que o empregado faz fora do trabalho, portanto,
pode ser motivo para insatisfação do chefe e do patrão, que podem demitir qualquer um, a qualquer momento, sem nem mesmo ter uma motivação para isso. É a lei. No entanto, o patrão tem de pagar 50% de multa sobre o FGTS e o aviso prévio. Além disso, o empregado tem direito de sacar o saldo do FGTS e acionar o Seguro Desemprego. Também é a lei.”

Bernardino Furtado.

http://danystarling.wordpress.com/2010/02/21/emmanuel-pinheiro-vs-estado-de-minas-quem-tem-razao/

Recomeçam visitas de escolas públicas à exposição de BH

Fotos: Daniela Giovana

Visita de alunos e professores da E.E. Doutor Lucas Monteiro Machado

Passada a semana de Carnaval, recomeçarão na próxima terça-feira, dia 23, as visitas de estudantes e professores da rede pública estadual de Minas Gerais à exposição “Cumplicidade – 20 anos de reportagem, 20 fotógrafos”. Até o dia 26, estão previstas 26 escolas. A programação é fruto de uma parceria entre o projeto “Cumplicidade”, o programa “Escola viva, comunidade ativa” da Secretaria de Estado de Educação e o Museu de Artes e Ofícios (MAO), que abriga a exposição.

De 09 a 12 de fevereiro, grupos de 10 escolas estaduais foram recebidos pelo jornalista Bernardino Furtado, idealizador e organizador do projeto “Cumplicidade”. Por ter presenciado o registro de todas as imagens que compõem a exposição, captadas por 20 fotógrafos parceiros, os ‘cúmplices’, Furtado oferece aos estudantes e professores a possibilidade de conhecerem o contexto e os bastidores de cada uma das fotografias.

A exposição “Cumplicidade” segue no MAO até 28 de fevereiro, inclusive. O horário é  de 12h às 19h, na terça-feira, quinta-feira e na sexta-feira, de 12h às 21h, na quarta-feira, e de 11h às 17h, nos sábados e domingos.  A entrada é gratuita.

Serão doados 250 exemplares do livro “Cumplicidade” para escolas da rede pública que integram o programa “Escola viva, comunidade ativa” da Secretaria de Estado de Educação. O “Escola Viva” investe em atividades culturais, artísticas e esportivas em escolas de bairros considerados de alta vulnerabilidade social e atingidos por elevadas taxas de criminalidade. 

Alunas de Educação de Jovens e Adultos (EJA) da ”Doutor Lucas Monteiro Machado” na exposição “Cumplicidade”, no Museu de Artes e Ofícios (MAO)

Antes tarde do que nunca

Por Bernardino Furtado

Finalmente, passados três dias, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais se manifestou em sua página na Internet (www.sjpmg.org) sobre a demissão arbitrária e ofensiva à categoria dos jornalistas do colega fotojornalista Emmanuel Pinheiro. A nota está lá, com título em corpo pequeno, abaixo da ‘convocação’ para o pagamento da contribuição sindical obrigatória, esta em letras garrafais.

A nota do Sindicato é bem-vinda, mas é tímida por não conferir caráter de intimidação que o ato do patrão, o jornal Estado de Minas, tem. Essa demissão tem o seguinte significado: “Viram? Vocês devem apanhar calados porque senão tomam uma justa causa e ficam desempregados com uma mão na frente e a outra atrás”. Quem terá coragem agora de se manifestar livremente numa assembléia do Sindicato em campanha por melhores salários e melhores condições de trabalho?

Também achei estranho o afã do presidente do Sindicato, Aloísio Morais, de ligar para o patrão que demitiu ‘por justa causa’. Aloisio deve saber que houve um tempo em que os boletins sindicais de repúdio à opressão do governo e dos patrões eram escritos em cima da perna e rodados noite adentro no mimeógrafo. Diante da precariedade, a velha e boa combatividade sindical.

Sindicato não é um escritório de relações públicas. É para defender a categoria, denunciar e lutar. O patrão que se defenda na Justiça.

Demissão arbitrária

Por Bernardino Furtado

Este blog faz parênteses na sua trajetória habitual para registrar a violenta demissão por ‘justa causa’  (onde está a Justiça?) do colega fotógrafo Emmanuel Pinheiro do jornal Estado de Minas, onde fez carreira brilhante de mais de seis anos.

O motivo alegado constitui, na verdade, um atentado contra a liberdade de expressão. Emmanuel mantém o blog http://www.pinheironafoto.blogspot.com onde registra comentários sobre fotografia, inclusive fotojornalismo, e sobre as condições de trabalho dos fotógrafos.

Um post crítico sobre a escolha da foto de capa do jornal Estado de Minas para registrar a  recente visita do presidente Lula e da candidata-ministra Dilma Roussef a Juiz de Fora provocou a ira de dois superiores de Emmanuel que levaram o caso à direção de redação e desta à ‘justa causa’.

Quem tiver a oportunidade de acessar o blog do Emmanuel poderá conferir a elegância com que fez a crítica, evitando, inclusive, citar nomes dos referidos colegas envolvidos no episódio da escolha da foto. Ter direito de discordar e expressar publicamente essa discordância é uma conquista do povo brasileiro depois de duas décadas de ditadura militar. Agora, se o chefe e o patrão não gostam, que demitam, mas nunca por ‘justa causa’. Ninguém pode falar de Justiça se não respeita a Constituição Brasileira.

Está aberta a exposição de BH

Fotos: Júnia Garrido/28.01.2010

Em noite para mais de 200 convidados, foi aberta no último dia 28, no Museu de Artes e Ofícios (MAO) a exposição “Cumplicidade – 20 anos de reportagem, 20 fotógrafos”. Mais de 300 exemplares do livro “Cumplicidade” foram distribuídos na abertura, que teve show da banda “The Hell’s Kitchen Project”.

A exposição prossegue até 28 de fevereiro. Veja os horários no convite virtual ABAIXO. Para ver mais fotos de Júnia Garrido sobre a exposição, explore a barra da direita e veja o álbum da fotógrafa neste blog.

Arte de Fernanda Monte-Mór sobre foto de Filipe Souza – “Cadernetas de Trabalho”/2009

 

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Rei da Maconha?

Por Bernardino Furtado e Sergio Dutti

Em meados de dezembro de 2000, fomos enviados pela revista Época ao Mato Grosso do Sul e ao interior do Paraguai para uma reportagem sobre o “Rei da Maconha”, o brasileiro João Morel. Por mote, a então recente absolvição do personagem pela 2ª Turma Criminal do Tribunal Regional Federal (TRF) de São Paulo, num processo por tráfico de drogas. A idéia da revista era atacar a ‘impunidade’ de grandes traficantes, beneficiados por decisões polêmicas de tribunais superiores.

Lei também Foi Beira-Mar?, Nas fazendas do “Rei da Maconha”, Conversa com o procurador e Visita à Penitenciária

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Visita à Penitenciária

Por Bernardino Furtado e Sergio Dutti

A apuração começou com conversas prévias com Manoel Lacerda, advogado de Morel e de alguns traficantes notórios do Mato Grosso do Sul. Antes de viajar a Campo Grande, acertamos uma visita ao acusado no presídio e a consulta aos processos por tráfico que pesavam sobre ele.

Leia também Foi Beira-Mar, Conversa com o procurador e Nas Fazendas do Rei da Maconha

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Esmola para o pedágio

Por Bernardino Furtado

A afobação para cumprir a pauta já me deixou em situação difícil na estrada. Provavelmente no ano de 1995, minha chefia na Sucursal de O Globo em São Paulo me mandou com um motorista cobrir um encontro de políticos em Campinas. Já era fim de tarde e tive de sair correndo porque o evento estava marcado para as 8h da noite.

Depois de superar o tráfego lento na Marginal Pinheiros, tomamos a Rodovia Bandeirantes. Naquela época, havia apenas uma praça de pedágio entre São Paulo e Campinas e só se pagava a tarifa na ida. Quando cheguei à praça de pedágio, descobri que não tinha tostão no bolso. O motorista Serginho também estava liso.

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