O sentido da liberdade
05 de janeiro / 2010

Condenados do regime fechado do presídio da Apac de Itaúna jogam bola no pátio

Condenados do regime fechado do presído da Apac de Itaúna-MG abençoam companheiro promovido ao regime semiaberto
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Por Bernardino Furtado
Valdeci Ferreira, o diretor do presídio da Associação de Proteção e Apoio aos Condenados (Apac) de Itaúna, é uma pessoa suave. Mas não é o modo afável o aspecto mais marcante da personalidade desse calejado militante católico da Pastoral Carcerária. Impressionam a firmeza nas convicções e a fala franca. Foi o que senti quando julgou a minha proposta de passar três dias, na condição de repórter, na ala do regime fechado da Apac-Itaúna. “Você não só vai fazer uma grande reportagem, mas, principalmente, vai melhorar como ser humano.” Ateu de quatro costados, tive de concordar com Valdeci quando passei pelo último portão do presídio e ganhei a rua, depois de 72 horas de convivência com mais de 50 condenados por crimes pesados como homicídios, assaltos a mão armada, estupros e tráfico de drogas.
No meio do segundo dia, abordou-me um condenado, ou ‘recuperando’, como chamam e conceituam os idealizadores da Apac. “É muito ruim ficar aqui dentro, mas nós estamos pagando nossas contas. Imagino como é para você, que poderia estar tomando uma cerveja, passeando, fazendo qualquer coisa lá fora”, disse. Respondi que estava ali para fazer um trabalho que eu mesmo tinha escolhido. Mantinha sempre o crachá no peito para que os presos não se esquecessem disso.
Mas foi outro condenado a longas penas por dois homicídios, que mostrou o quanto é difícil trazer um criminoso de volta à liberdade, no seu sentido mais amplo. Especialmente se é alguém que, desde criança, passou muito pouco tempo fora dos muros de um presídio. De forma espontânea, contou a primeira detenção, na antiga Delegacia de Menores (Deom), de Belo Horizonte, os maus tratos, a comida intragável, o impulso para a fuga, as reincidências no crime e o rosário de cadeias e penitenciárias por onde passou depois.
Os três anos num presídio diferente, como a Apac-Itaúna, em que os próprios condenados cuidam da segurança, da disciplina, da limpeza e da preparação da comida, não tinham sido suficientes para apagar as velhas marcas. O condenado interrompeu a longa dissertação sobre a própria vida para recolher rapidamente um cigarro que descartei pela metade no pátio. A sensação de ociosidade e de ser um estranho no ninho naqueles dias me levavam a acender um cigarro atrás do outro. O homem me olhou fixamente, em tom de advertência: “Uma guimba desse tamanho no chão dava até morte na ‘Furtos e Roubos’, disse, lembrando-se da temporada que passou numa das carceragens mais degradantes de Belo Horizonte.
*** A reportagem na Apac abrigou a minha segunda e última experiência, por sinal sofrível, como fotojornalista.
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Categorias: reportagem



















2010-01-22 23:07:42
O ser humano e seus mistérios... Só quem tem coragem para encarar seus próprios labirintos consegue enfrentar situações assim; procurar respostas onde as perguntas se apresentam tão expostas. Seu trabalho foi sempre corajoso, inquieto, inquietante. Como é bom ler tudo que você nos mostra!
2010-01-26 17:50:58
Parabéns, Bernardino, sempre repórter com texto que a gente escorrega nele, relatos de um profissional coragoso e inquieto como vc. Abraços da colega, Luciana Melo.
2010-01-27 09:13:27
Obrigado, Luciana. É bom receber sua visita. Bernardino.